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Arquivo mensal: março 2013

Homem elipse toma vitaminas e vai de ônibus para o trabalho

Homem Elipse preparava-se para fazer flexões. As vitaminas que havia começado a tomar já faziam efeito. Conseguia dormir cinco horas por dia e não acordava com vontade de morrer. No trabalho, conseguia raciocinar pela manhã. Não pensava mais em dormir escondido no banheiro após o almoço. Anos de frustrações e demissões poderiam ter sido evitados. Ele agora sabia que sua preguiça mortal, quase paralisadora, era fruto de uma espécie de deficiência hormonal, ou outra coisa do tipo. O impulso de comprar as vitaminas veio após ter assistido uma matéria no telejornal, semanas antes. Um rapaz cadeirante de vinte anos pegava quatro ônibus por dia para trabalhar. Dois para ir e dois para voltar. Homem Elipse pegava taxi quase todos os dias, pois acordava às nove da manhã, com uma preguiça mortal, uma melancolia que ia além de uma mera indisposição.

Trabalhar é uma desgraça.

Um dia, pensou em atirar na própria cara, mas seria patético morrer por preguiça. Ainda não havia chegado aos trinta anos. Queria, ao menos, ver o progresso do garoto cadeirante, que, naquele telejornal de terça-feira, havia inundado suas entranhas com imensa culpa. Estava comendo miojo com queijo. Tinha trezentos e vinte reais na conta corrente. Noventa e dois centavos na poupança. E era tudo. O seguro desemprego havia acabado há dois meses.

Se eu não gastar muito eu posso esperar uns três meses para voltar a procurar emprego.

Sujo de queijo e de merda, Homem Elipse aguardava o programa esportivo enquanto assistia ao telejornal. As mortes banais. As mortes engraçadas. As mortes patéticas. As notícias seguiam as mesmas, até que o garoto cadeirante apareceu.

Eu preciso trabalhar. Vou tomar vitaminas e vou conseguir dormir menos. E vou acordar mais disposto. E vou fazer flexões. E vou ler mais. E vou fazer um curso qualquer. Todo mundo trabalha, junta dinheiro e faz um monte de coisas bacanas.

Ele pensava em fazer um curso de fotografia aos finais de semana para amenizar a mediocridade existencial que o resumia a uma atividade sem sentido durante quarenta e quatro horas semanais. Relatórios, sistemas, números, documentos, segundas vias, terceiras, vias, e-mails urgentes. Era como uma gincana qualquer. Muitas vezes custava a entender a maneira como o seu trabalho contribuía para as empresas em que trabalhava. Imaginava aquilo tudo sem ele e não via a menor diferença.

Talvez eu não mereça andar.

Era uma nova terça-feira, quando Homem Elipse acordou cedo, fez uma flexão, e foi de ônibus para o novo trabalho.

 
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Publicado por em 26 de março de 2013 em Match Point, Porta Retrato, WTF?!

 

Pedalando, pedalando na bicicletinha

Numa das vezes vez que a passagem de ônibus aumentou, eu resolvi fazer uma manifestação silenciosa e ir de bicicleta pra faculdade. Assim economizava um dinheirinho e, de quebra, fazia exercício.
Fui aos trancos e barrancos, atropelando carros e quase caindo algumas vezes.
Vários tombos (e alguns retrovisores) depois, cheguei na faculdade, todo suado e cansado.
Aula, aula, aula, hora de ir embora. Pose de atleta.
Montei a bicicleta, dei uma pedalada e boing! – lá fui eu pro chão novamente, parecendo uma jaca mole.

tombo de bicicleta

Levantei, na classe, fiz novamente a pose de atleta, dei uma pedalada e despenquei de novo em cima de um carro do estacionamento.
Alguém achou que eu estava bêbado/drogado, porque escutei um comentário do tipo “mas já? tão cedo?”.
Morrendo de vergonha, notei que o pneu estava furado – e aprendi depois de alguns tombos que bicicleta com pneu furado não anda…

bicicleta com pneu furado

 
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Publicado por em 25 de março de 2013 em Chuta que é Macumba, Match Point, WTF?!

 

Bianca

Ela disse que meu cabelo ficaria mais bonito encaracolado.

Ela ia ao aeroclube tomar sorvete comigo.

Ela fez com que eu conseguisse meu primeiro emprego.

Ela comprou o dvd do meu filme favorito.

Ela conversava comigo durante horas sobre desenhos animados.

Ela respondia as minhas mensagens de texto. Quando não tinha créditos, dava um toque no meu celular para eu saber que as mensagens tinham chegado.

Ela nunca me entediou.

Ela viu fotos da minha infância.

Ela sentava na cama da minha vovó.

Ela foi até a rua da casa da minha infância em Arembepe.

Ela dizia que iria fugir comigo pra uma aldeia hippie se tudo desse errado.

Ela empurrava o Fusca comigo.

Ela colocava leite em pó na minha salada de frutas.

Ela me ajudava com trabalhos de faculdade.

Ela compartilha de todas as minhas aflições.

Ela consegue entender tudo que acontece comigo.

Ela me ajuda em tudo o que ela pode.

Ela me recebe no aeroporto.

Ela tenta cozinhar para mim, mesmo sem saber. E não se incomoda com o fato de eu também não saber.

Ela me ajuda a escrever.

Ela me ajuda a filmar.

Ela se deixa ser filmada.

Ela inventou um termo específico para definir um senso de humor que acreditava ser exclusivo dela e de suas melhores amigas.

Ela ouve tudo o que tenho a dizer.

Ela come banana cortada com leite em pó e açúcar.

Ela ama cachorros.

Ela pede para cortar as minhas unhas.

Ela me deu um violão.

Ela é justa.

Ela é meiga.

Ela é elegante.

Ela é a melhor pessoa que já conheci.

E eu amo Bianca.

BIA

 
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Publicado por em 19 de março de 2013 em Guerra dos Sexos

 

Joguinho do amor

Tem gente que acha que relacionamento é um jogo de xadrez. É muita estratégia pra minha cabeça.

Estava almoçando tranquilamente, feliz e saltitante quando duas senhoritas pedem licença para sentarem-se à minha mesa, pois o local estava cheio e eu estava comendo sozinho numa mesa pra 4.
“Tudo bem, tudo bem…”.

Como sempre acontece, meninas que almoçam juntas conversam. Como sempre, fiz cara de paisagem. Mas, como sempre, é inevitável não ouvir o que dizem.

coração na areia relacionamento jogo de xadrez

O ex-namorado de uma das moças estava querendo voltar com ela… este era o grande assunto da dupla. Ela havia namorado outro rapaz, mas já havia terminado há mais de três meses, e quando o ex apareceu, prontificou-se a falar que ainda estava compromissada com o pequeno caso pós-namoro. Disse pra amiga que estava afim de voltar, mas não queria “se entregar de mão beijada” pro ex-namorado.

A amiga, pelo visto muito experiente em relacionamentos, mais em quantidade do que em qualidade dizia que se ele a tinha feito sofrer, ele tinha que sofrer também, que ela sempre fazia isto porque achava que era assim que tinha que ser feito, blá, blá, blá…

Ouvindo esta história ridícula eu me perguntei: “Onde ela vai achar felicidade neste tipo de atitude?”

relacionamento é um jogo de xadrez

O cara quando termina um relacionamento e depois quer voltar com a mulher é porque realmente gosta dela!
Isto é a coisa mais lógica do mundo!
Não existe homem que não curta a vida de solteiro, e se ele está disposto a largar todas as vantagens da solteirice (que não são poucas) pra ficar com uma mulher é porque ele gosta dela de verdade.
Aí vem as amigas dando estes conselhos inúteis que podem acabar fazendo com que o cara pense se vale a pena e vá viver a vida dele, e aí a outra lá fica chupando dedo por ter perdido alguém que realmente gostava dela.

Pior do que sogra se metendo em relacionamento, e eu graças a Deus nunca tive este problema, é amiga dando conselho.
Só sai merda. As amigas metem o pau no namorado da amiga pra levantar seu astral.
Depois a mulher chia porque tu anda demais com teus amigos.

Mulher acha que homem só gosta de falar de mulher… p0rr@!
Homem é o bicho mais idiota do mundo… a prova maior disso é que a nossa maior diversão é correr atrás de uma bola pra chutar. Quer coisa mais retardada do que isso?

Outra coisa… homens sentem vontade de sacanear… de fazer brincadeiras “sem graça” entre eles, e que, obviamente, não fariam com a própria mulher (por temer as conseqüências desastrosas disto rsrs).
Portanto quando estamos juntos tomando cerveja, ou juntos falando besteira, estamos a sacanear uns aos outros… (quem foi que trouxe _______?)

Então meu conselho é o seguinte: pense bem antes de deixar alguém meter o bedelho no seu relacionamento. Quem fica com as conseqüências (boas ou ruins) não é o seu(ua) querido(a) amigo(a) conselheiro(a) é você.

 
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Publicado por em 18 de março de 2013 em Guerra dos Sexos

 

Danilão e seus métodos estúpidos

Danilão dormia doze horas por dia e acordava cansado. Danilão acordava cansado todos os dias. Danilão sentia estranhamento na cabeça quando falava demais. Era uma quase dor. Um aperto.

Danilão havia terminado o namoro de muitos anos. Sentia-se frustrado ao trocar conversas profundas por amenidades com as novas possibilidades. Parte de si havia terminado também. Tudo o que havia acontecido com ela. Para ela.

Danilão havia aprendido muito sobre si. Há tempos havia banido para si mesmo o uso de sungas em público, por exemplo.

Danilão tentava fazer cocô todos os dias, mas acreditava em correntes e parou de tomar Activia quando recebeu um e-mail de sua irmã. “FW: Vc sabe do que é feito o ACTIVIA???”

Danilão era feio, muito feio. Aos quinze anos, ganhou uma camisinha do pai, e guardou-a ate que perdesse o prazo de validade.

Danilão nunca entrava com o mesmo nick no Mirc.

Danilão ativava “o que estou ouvindo” no msn.

Danilão acha que já matou um gato.

Danilão teve que devolver um cachorro uma vez.

Danilão tinha o dicionário Michaelis português-inglês inglês-português que era vendido aos poucos no Correio da Bahia. Incompleto.

Danilão não pensava no futuro. Danilão não pensava em nada. Danilão não tinha plano de saúde. Danilão não contribuía com o INSS. Danilão entrou no consórcio de carro usado. Só atrasou a prestação uma vez.

Danilão reiniciava o futebol do videogame quando estava perdendo, todas as vezes, nos acréscimos do segundo tempo.

Danilão tomava licor velho.

Danilão contava piada.

Danilão tinha preguiça de cortar as unhas dos pés.

Danilão queria fazer concurso público, arranjar uma mulher, fazer cocô todos os dias, juntar dinheiro, comer, beber, sair, viajar, tirar férias, e tudo mais.

Danilão não sabia de nada.

 
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Publicado por em 14 de março de 2013 em Match Point, Musicalizando, Porta Retrato, WTF?!

 

O clube do clube

Cardoso não gosta de nada. Então ele participa do clube do clube. O clube para pessoas que participam de clubes.

Tudo corria bem, até que os outros membros do clube do clube começaram a desconfiar das motivações de Cardoso. Borges, fundador do clube do clube, questiona Cardoso sobre a natureza de sua participação nos encontros.

– Quais são os seus outros clubes?

– Como assim?

– Este é o clube do clube. O clube para pessoas que participam de clubes. Eu sou do clube do Fusca. Osvaldo ali é do clube dos colecionadores de garrafas de coca-cola. Jeremias… Qual o seu clube?

Jeremias não responde. Jeremias é surdo, coitado.

– Jeremias é de um clube também. E você?  O pessoal ta dizendo que não conhece você de clube nenhum.

Cardoso pensa consigo mesmo.

Foda-se.

– Eu sou daqui.

– Cardoso, você precisa de um clube.

– Isso é um clube. Eu faço parte desse clube, portanto faço parte de um clube.

Cardoso está sendo intransigente. O clube do clube é para membros de clubes. É preciso ser membro de um clube para entrar lá. Um culto aos clubistas. Cardoso está fodendo com tudo.

– Você está sendo intransigente, Cardoso. Está fodendo com tudo.

Jeremias se aproxima.

– O que foi?

Borges grita.

– Cardoso não tem clube!

Jeremias se exalta.

– Que porra é essa, Cardoso!

Cardoso é insensível com Jeremias.

– Caralho, Jeremias. Até você? Seu clube acabou e todo mundo sabe disso.

Borges defende Jeremias, que é surdo, coitado.

– Caralho, Cardoso! Jeremias é surdo! E ele tinha clube quando entrou aqui. Não podemos fazer nada se o clube dele acabou. Não tem nada a ver com o seu caso. Você nunca teve clube. Você fere o sentido de tudo que estamos fazendo aqui. Estamos aqui para falar dos outros clubes. Estamos aqui para refletir sobre o papel do clubista. A função do clube é discutir a participação em outros clubes. Você faz mal a toda instituição do clube do clube e eu, como fundador disso aqui, preciso que você pare de frequentar nossas reuniões, ou arranje um outro clube!

– Eu não gosto de nada. Gosto do clube. Da idéia de um clube. De pessoas se reunindo para adorar alguma coisa. Mas eu não gosto de nada, especificamente.

Cardoso não gostava de nada. Nem tinha ambições. Trabalhava há sessenta anos no mesmo lugar. Jeremias havia lhe contado sobre o clube do clube. Decidiu arriscar.

Após dez minutos de discussão, foi expulso do clube do clube.

Morreu pouco tempo depois.

 
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Publicado por em 12 de março de 2013 em Mundo cão, WTF?!

 
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Midas às avessas

gatinho