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Arquivo mensal: setembro 2013

Um último adeus

Na madrugada de primeiro de janeiro, vesti meu amuleto e pedi ao universo que me desse a chance de aprender a amar. Nesse mesmo dia, com o sol nascendo para nos desejar boa sorte, eu te beijei, você me convidou para dançar na beira do mar e cantou no meu ouvido. Eu soube, então, que seria sua.

Dois anos, oito meses e vinte e um dias depois, na madrugada do dia em que você me deu seu último adeus, meu amuleto se partiu ao meio. Sem muita explicação, simplesmente quebrou. Meu coração quase se foi junto. Mas, no fundo, sei que foi lindo e foi duro, e que tudo valeu a pena.

Sou uma pessoa melhor, mais madura e mais feliz por ter te conhecido. Obrigada por ter me ensinado a amar.

 

Da sua nada, sua quase-nada, sua mais-que-tudo.

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Publicado por em 23 de setembro de 2013 em Licença Poética

 

Notas sobre os desencontros de inverno

Estamos na farmácia. Farmácia de supermercado 24h. Procurando sal de frutas para curar a azia. Comemos salgado empanado com frango triturado. E suco.  Assistimos “Elena”. Bianca chorou no carro.

Deixamos a câmera com Ceci. Minha câmera vermelha e velha. Outro dia pegou vírus pelo cabo USB. Pesquisa na internet agora resolve tudo e o vírus do computador foi embora. Mas a câmera está infectada e os pendrives também.

Elena desconfortou. Lá, assistindo, achei tudo muito. Tudo demais. Agora, relembrando, acho que fui injusto. Agora não estou mais na farmácia. Nem no cinema. Estou aqui.  Mas a azia vem e vai, o tempo todo.

Azia que nem é mais de Elena, ou da câmera infectada, mas de tudo mais que tropeça em cavalos de Tróia.

Lembrei da professora de inglês do ginásio. A diretora da escola reuniu algumas turmas na mesma sala para comunicar o incomunicável.

“A professora morreu em um acidente de carro”

Era mentira.

Algumas pessoas choraram. Eu não lembro o que fiz.

Depois descobrimos que ela havia se matado.

“Descobriu que estava grávida. Havia terminado com o namorado. Tinha depressão”.

Ela era muito jovem. Eu também.  E naquela época não entendia a lógica de um suicídio. Anos antes, havia surtado quando me dei conta da minha mortalidade e passava as noites sem dormir, pensando que morreria um dia.

Ela era nova na escola. Não tinha mais de um mês. Nos fez ouvir uma música de “Dido”. “Thank You”. Ela gostava daquela canção.

Pessoas entram e saem da nossa vida a todo instante. Estamos nos chocando em vias sem sentidos obrigatórios.

Outro dia, me choquei com o senhor Philippe e seu complicado coração, através de um e-mail enganado.

Marcus,

Ontem, pela manhã, uma Senhora (…) telefonou e me disse que haveria nova avaliação do senhor (…) e, se fosse o caso, à tarde seria transportado para o (…).

(…) me disse à noite que ele foi operado da vesícula, estava na hora pois já supurada, mas já estava no pós-operatório.

Assim, e mais uma vez, em nome de toda a família, OBRIGADO. Valeu, Presidente!

(…)

Philippe,

Acho que houve algum equívoco. Não nos conhecemos e desconheço completamente o contexto do e-mail. Favor verificar o endereço do destinatário.  

(…)

Marcus,

Me perdoe. Tem toda a razão. Você tem um homônimo – pessoa excelente e do melhor nível ético segundo a opinião deste idoso de 81 anos . Ao digitar o seu nome, apareceram três opções de e-mail e cliquei numa das três. Opção errada… Realmente, cheguei tarde à idade da internet. Peço desculpas por minha inabilidade, e agradeço a gentileza do aviso.

(…)

Phillipe,

Sem problemas. Espero que o “verdadeiro” Marcus Curvelo receba as suas mensagens. E você é apenas um ano mais novo que meu pai, então não se sinta tão deslocado assim.

Boa sorte e tudo de bom.

(…)

Ele continuou enviando e-mails por engano. Tentei avisá-lo novamente. Desta vez, de maneira mais gentil.

Olá, Philippe. Tudo bem? 

Continuo recebendo seus e-mails por engano. Mas não se aborreça. A questão é que o verdadeiro Marcus Curvelo não está recebendo as suas mensagens. Tente ver o final do endereço de e-mail. Quando aparecer “@gmail.com“, sou eu.

Cordialmente,

“Falso” Marcus Curvelo

(…)

Prezado Marcus Curvelo,

Difícil admirar mais alguém que sequer conheço. A sua invariável gentileza toca o meu complicado coração; perdoe um velho tonto, que briga com o seu teclado e já não enxerga bem qualquer coisa abaixo de uma fonte 14.

Quando digito o nome de Marcus Curvelo, aparecem algumas opções já completas. Evito o endereço oficial de meu amigo e opto por…gmail, quando o dele é (…).

Mea culpa, mea maxima culpa.

Tentarei que não torne a acontecer. Como poderia assegurar que não recomeçarei a mesma tolice? Não incidir mais em senilidade?

Agradeço a acolhida.

Perdão e ótimo final de semana. Numerólogos devem explicar a causa de Marcus Curvelos serem pessoas tão bacanas.

(…)

Talvez ainda fosse a azia. Ou talvez fosse a solidão momentânea de mais uma madrugada em que eu procrastinava mais um trabalho qualquer. Mas eu me abri com o senhor Phillipe.

Prezado Phillippe,

A verdade é que gosto destes (des)encontros. Veja, sou cineasta, ou pelo menos gosto de pensar que sou um. E entre os minúsculos curtas-metragens que produzi durante esses primeiros anos de labuta, cambaleei entre pessoas chatas e trabalhos chatos, em um marasmo de idas e vindas sinuosas que não me levaram a muitos lugares. Quando um Francês de 81 anos me envia um e-mail (te pesquisei no google), mesmo que por engano, é algo para ser celebrado! 

Portanto, não se preocupe com esses embaraços cibernéticos. Tenho buscado cada vez mais o desencontro. E enquanto ainda estiver preso em trabalhos acadêmicos, empregos ruins e roteiros inacabados, será isso, encontros com pessoas bacanas e distintas, que impulsionará o meu também complicado coração. 

Grande abraço.

(…)

Já se passaram duas semanas. Talvez tenha assustado o senhor Philippe, ou ele finalmente excluiu meu e-mail de sua caixa de entrada.

Ou nos desencontramos. Da mesma maneira aleatória como nos chocamos da primeira vez.

 
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Publicado por em 17 de setembro de 2013 em Match Point, Porta Retrato

 

Corujinha

Você sabe que meu amor é crônico
O que tem entre nós é mais que química
Este que ‘cê diz viver um conto erótico
Tem é a experiência de um ingênuo

O nosso mundo é perto do fantástico
Um começo um pouco mais do que cômico
Um filme que não se define gênero
Uma forma inexistente de música

Mesmo tudo sendo singular, rápido
Continuo o de sempre, o mesmo rústico
Que me apresento jovial, simpático
Depois me mostro este grande esdrúxulo

Pra me arrepender não preciso ser lúdico
Mesmo estando num nervosismo atônito
O que fiz pode não ter sido ético
Mas não é justo me banhar com críticas

Nesse lance eu não tenho tanta prática
Mesmo sendo sempre muito romântico
É um jogo em que não sou um fenômeno
O que eu quero é que você seja a última

corujinha

 
2 Comentários

Publicado por em 8 de setembro de 2013 em Guerra dos Sexos, Licença Poética, Pseudo Cult