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Arquivo mensal: março 2015

Como se fosse um sonho…

Em 2008 eu entrei no mercado imobiliário para estagiar numa grande empresa. A empresa estava ainda iniciando os trabalhos no estado e chegou investindo forte em infraestrutura e captação de clientes, por isso tinha um setor de atendimento e marketing forte.
Eu consegui a vaga pelos meus conhecimentos em Estatística, e comecei no “sub-setor” de Pesquisa/Inteligência de Mercado. Mas fui “convidado” a participar dos lançamentos, com a ideia de que era o melhor caminho para conhecer os “dinossauros” do mercado, mostrar a cara e ascender na empresa e no mercado.
O mercado estava muito forte, lançando mais que o dobro dos cinco anos anteriores somados, e os eventos eram muitos e os investimentos nestes eventos eram fora de série. Shows de grandes artistas nacionais (como Nando Reis e Dinho Ouro Preto), presença VIP de atores e atrizes globais, e eu lá, me sentindo um estranho no ninho.
Num destes eventos, este presente uma famosa atriz global, tirando fotos e distribuindo beleza e sorrisos no evento. Eu sempre tive certa rejeição inicial a pessoas famosas, e com ela não foi diferente, mesmo ela sendo uma das musas da minha adolescência, quando assistia malhação.
Eu sempre tive a sensação de que aquele sorriso era de plástico. Era escolhido depois de várias tentativas na frente do espelho ou de um fotógrafo.
Com ela não foi diferente, cada sorriso era uma sensação de falsidade que vinha e eu imaginava que ela estaria odiando estar ali, tirando fotos com todos aqueles corretores suados e mal educados. Não que eu achasse o máximo estar ali, eu só achava que a pessoa pra fazer este tipo de trabalho tinha que gostar do que faz. No mínimo achar jocoso.
Tanto era assim que, geralmente, quando o público diminuía, a presença VIP não ficava mais do que 10 minutos e corria para a van, onde ficava até ir embora, para hotel, presença VIP em outro lugar ou reunião com os chefes.
Para a minha surpresa, ela ficou. Foi super-simpática com o pessoal que ficou. Tirou fotos e mais fotos com os garçons, estagiários, até pensei em tirar também, mas resolvi não trair minhas ideologias.
Neste dia, após o evento iria ter um jantar dos chefes com a presença VIP da atriz e, para a minha maior surpresa, o chefe convidou até os estagiários para a mesa grande.
Como estagiário fica com o trabalho mais pesado sempre, eu sentei logo. E como alguns chefes, só se juntam aos estagiários a contra gosto, eles foram sentando longe e as cadeiras foram se acabando. No final das contas, a última cadeira disponível era ao meu lado. E não é que a loira VIP sentou ao meu lado? Tudo bem que até estagiário tinha que usar terno e gravata, e isso nos “camuflava”.
E ela super aberta à conversa, falava com todos os presentes (principalmente respondia a perguntas) e, vez ou outra, fazia uns comentários até interessantes sobre as perguntas. Era engraçado porque eu estava ao seu lado e ela falava baixo, às vezes sussurrava bem de perto, o que gerava olhares inacreditáveis do pessoal ao redor, o que também mereceu comentário dela.
Acho que a minha maneira de lidar com a situação a agradou, a nossa conversa era muito menos formal do que era com o restante do pessoal. E a surpresa maior ficou para o final, quando ela pediu meu número e deu um “toque” para que eu salvasse o seu.
Esta foi a hora em que a minha perna amoleceu. Fiquei tenso. Não entendi o motivo d’ela ter pedido e tinha a certeza de que ela não iria me ligar nunca. Cheguei em casa e entrei no MSN pra contar pro amigo mais próximo que estivesse online, aquilo não poderia morrer comigo!
Infelizmente não tinha ninguém próximo online e eu fui deitar, mas antes de dormir eu precisava olhar a minha agenda e conferir se era verdade. E, aí meu coração disparou, tinha um SMS dela, de cinco minutos antes. O sono foi embora.
Trocamos umas cinquenta mensagens até o “boa noite” (felizmente eu tinha pacote de mensagens que não me deixou ficar sem crédito).
O dia seguinte era domingo e, mesmo assim trabalhei. Morri de vontade de ter mandado mensagem de “bom dia” ou de “boa viagem”, mas não tive coragem suficiente.
Já estava perto de escurecer e eu já saindo do ShowRoom, quando meu celular apita. Ela não tinha conseguido pegar o voo devido ao mau tempo em SP e perguntou se eu não conhecia um lugar que tivesse comida mexicana boa. Eu não entendi se era um convite ou se ela só queria o nome, dei o nome. Claro. Sei onde é o lugar do estagiário.
Mas ela só sabia chegar na praça próxima ao restaurante e perguntou se eu não poderia ir com ela a partir desta praça. E eu disse que ia em casa pra tomar um banho e a esperaria na praça.
No horário combinado ela chegou e fomos andando até o restaurante. Com vários olhares. Eu tive que perguntar como ela aguenta todo mundo olhando o tempo todo. Ela explicou que já é assim desde sempre, acabou se acostumando.
Chegamos no restaurante, que eu acho ótimo pela pouquíssima iluminação, sentamos numa mesa de canto e após o pedido do prato, ela chegou mais perto e aproximou o rosto. Ao sentir a sua respiração eu senti um cheiro nada agradável. Pior ainda foi que ela começou a passar sua língua em mim. Mas o pior de tudo foi que eu acordei com Tobias, o Cocker Spaniel da casa, lambendo.
Foi o melhor sonho e o pior despertar da minha vida.

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Publicado por em 19 de março de 2015 em Pior é na Guerra, WTF?!

 

O crime não compensa e tudo conspira a favor

Numa caminhada pela praça, pela orla, pela biblioteca, sempre podemos nos chocar com o imprevisível, se encontrar com alguém que você não vê há anos ou com algum desconhecido. Assim terminaram aquelas férias. Cena de cinema logo no desembarque com o choque de corpos e as coisas esparramadas no chão. A ajuda, o encontro de olhares e o sorriso. Só não houve o toque de mãos porque a pressa de ambos era muita. E eu fui embora dali.

Cinco minutos depois, sento no ponto de ônibus e outra desconhecida me pergunta se ali passa o Terminal de São Joaquim. E lá estava eu pegando o mesmo ônibus e tendo uma conversa agradável pelo longo percurso. Depois ajudei-a no resto da ida pra casa, ajudei-a numa troca de passagem de avião, quando faltou luz e internet em sua casa, quando sua amiga adoeceu, já rimos muito comendo pizza e bebendo vinho, cerveja, tocando violão, já conhecemos os amigos do outro, já nos despedimos e nos encontramos outras tantas vezes. Ela hoje mora longe. E até hoje somos amigos.

É também uma chance de conhecer alguém que você nunca trocou mais do que uns bons dias, boas tardes e boas noites nas escadas ou no portão do prédio. Como aconteceu com Carol. Eu estava com um amigo do trabalho num boteco no Rio Vermelho e ela estava cabisbaixa e sozinha numa mesa logo à frente. Como tenho coração mole para animais, crianças e mulheres, perguntei se ela não queria se juntar a nós. Ela apenas disse que estava bem e que estava esperando uma amiga. Meu amigo precisava ir, mas eu resolvi tomar a saideira sozinho. Também tinha esperança em ser chamado por Carol. O que só ocorreu por outro ápice da imprevisibilidade. A amiga dela, Jamile, tinha sido minha colega de faculdade e eu não a via havia muitos anos. E partiu de Carol o convite para se juntar a elas.

Pude perceber que fiquei encantado pela inteligência delas. Pelos gostos musicais, pelos filmes assistidos e indicados, até pela forma de falar em política mesmo tendo posição diferente da minha. Ambas com jeito de meninas e cabeça de mulher. Bom que não fiquei intimidado como geralmente fico perto de pessoas muito faladeiras. Acho que tomei mais umas três até tomar vergonha na cara e me despedi para deixá-las a sós para o encontro que já estava marcado, mas Jamile me chamou pra dormir na casa dela. Carol iria dormir lá também. Como o apartamento era próximo, nem precisei tirar o carro da frente do bar. No caminho fomos os três de braços dados, o que é muito estranho já que se as mesmas pessoas estivessem se encontrado em outro lugar, teríamos no máximo um aceno de longe.

Combinamos que elas dormiriam na cama, que era de casal, e eu dormiria no sofá. Logo ao chegar, Jamile foi tomar banho e a conversa foi mais tímida com Carol, mesmo assim eu deitei minha cabeça no seu colo. Rimos muito quando Jamile deu um grito ao perceber que estava saindo nua do banheiro, como deveria sair sempre que não tinha visitas. Nós não vimos nada, nem importa. O que aconteceu depois também não vem ao caso. O que importa é que quando íamos dormir, já eram 6h, o sol já começava a brilhar e eu resolvi que ia pra casa, enquanto Carol iria para a aula, provavelmente para dormir na cadeira.

E eu achei que o universo nos reserva encontros escondidos em formas tão inusitadas quanto simbólicas. Difícil é reconhecer ou, se reconhecer, tomar a atitude certa. Como a história do ônibus vazio. Mas esta ficará em outro post.

 
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Publicado por em 13 de março de 2015 em Guerra dos Sexos

 

A ruazinha modesta… ♪

Lembrei-me desta música que meu pai ouvia muito. Posso até sentir pena do rapaz da música. “Ela é tão rica e eu tão pobre, eu sou plebeu e ela é nobre, não vale a pena sonhar…” ele dizia.
Eu sempre achei que não fosse problema de riqueza/pobreza financeira, mas de riqueza/pobreza de atributos. Era como eu via Luana. Uma colega de curso.
Ela era absurdamente linda. Toda vez que os homens do instituto a viam, paravam a conversa e observavam cada detalhe do seu corpo e do seu caminhar. Seios sob medida, bunda sob medida, pernas lindas, muito sexy. E tudo piorou quando descobrimos que ela também era muito simpática e alto astral. Era a mulher que todos desejavam mas nenhum sonharia em pegar.

E ela, claro, tinha namorado. E seu namorado, provavelmente, tinha a moeda da sorte de Gastão (só os mais velhos que curtem HQs entendem).

Veio do interior pra estudar em Salvador e, por conspiração dos deuses, caiu na minha sala em três matérias.

Num destes grupos de estudos que fazíamos na semana que antecedia as provas, o pessoal se juntou pra comer pizza e nós sentamos frente a frente. E eu não conseguia disfarçar o meu nervosismo. Eu sou muito solto quando estou com amigos. Posso estar rodeado de mulheres que continuo normal. Eu sou tímido, mas não travado como estive naquele dia.

Mesmo assim, troquei telefone com quem não tinha e mantivemos contato até depois de ter mudado de curso.

Vez ou outra a gente se encontrava na rua, nos intervalos, etc. E sempre que nós tínhamos tempo, parávamos pra colocar o papo em dia, numa mesa de um boteco, lanchonete, restaurante ou até mesmo na praça de alimentação de algum shopping próximo.

Vez ou outra ela me chamava pra “bater perna” no shopping, ir ao cinema e fazer outras coisas que amigos fazem.

Eu comecei a ficar muito ligado na dela, mas nunca tentei nada principalmente porque eu adorava a sua presença e não queria correr o risco de não ter nem isso.

Uma vez a vi num ponto de ônibus, tinha acabado de comprar o meu primeiro carrinho e resolvi oferecer carona pra onde quer que ela fosse. Sorte a minha que era beeem longe (e azar do meu bolso).

A deixei na porta do seu condomínio e, antes de descer ela perguntou se eu queria tomar uma no bar que tinha em frente e, como na época existia um limite de álcool aceitável (Rui-Politicamente-Correto), aceitei. Entrei no condomínio e fomos para o bar.

Antes do primeiro gole ela já me deixou gelado com a conversa. Contou que se sentia bem comigo desde os primeiros dias, que eu tinha um sorriso acolhedor, falou da primeira vez que eu a abracei numa despedida de semestre, tinha se assustado com o abraço mas sentiu uma energia boa, que era algo verdadeiro.

Eu não conseguia acreditar que ela sentisse algo, por isso continuei tratando como um sentimento fraternal, uma coisa boa e linda, mas fraternal.

Falou que achava lindo eu achá-la doce: “nem parece que você ‘tá falando de mim, todo mundo me chama de cavala, bruta… só você mesmo”.

Depois do terceiro ou quarto copo (tudo o que vier eu topo…), ela mudou o rumo da conversa. Disse que estava com um pé no casamento e outro no mundo. Que seu namoro ia de mal a pior, que estava com a oportunidade de passar um ano na Europa, já a partir do mês seguinte e que estava pensando seriamente em ir. E solteira.

Depois disso eu tive que mandar um SMS para um amigo que morava no mesmo condomínio perguntando se eu podia dormir lá. Adorei saber que o apartamento estava vazio e adorei mais ainda saber que eu tinha a chave.

DIÁLOGO DESPRETENSIOSO E (SUR)REAL:

– Você tem alma de artista, devia ir comigo.

– Alma de artista? Eu? E isso é uma coisa boa?

– Muito boa! Você ganha muitos pontos com isso.

Eu contei meu passado amoroso e fracassado e ela contou que nunca sentiu emoção no relacionamento, que só teve ele e que, além de achar que ele estava a traindo, tinha descoberto que o amor acaba.

Depois de tantos sinais, eu não me senti confortável hora nenhuma para tentar algo. E, na despedida, descobri o quão fracassado eu era. Não tentei nada e ainda me esqueci de ir pra casa do meu amigo e fui pro carro.

Antes de chegar na portaria, meu celular toca e aparece a foto e o nome: Luana.

                DIÁLOGO ESTRANHO E SURREAL:

                – Estou presa fora de casa! Minha chave sumiu!

                – Ainda não saí, quer vir no carro ver se a chave caiu?

                – Estou logo atrás do carro.

                – (?!)

Eu abro a porta do carro e o som está tocando mais uma das músicas estranhas da minha playlist. E ela diz:

                -Que banda é essa? Que música linda!

Digo nome da banda e da música e ficamos parados. Ela ouvindo e eu a admirando, como sempre.

Foi o momento de ligar o “foda-se” e beijá-la. E foi o que eu fiz. E ela retribuiu. E depois de uns trinta segundos de beijo:

                – Rui! Eu tenho namorado! E você sabe!

                – Eu sei! Mas, você vai embora! Não queria deixar passar esta, que pode ser a última oportunidade do ano. E, também porque eu quis. Muito.

                – Eu também… puta que pariu!

E nos beijamos novamente. Ela pegou a chave e saiu. E eu fiquei com aquele sentimento de que a noite poderia ter acabado ainda melhor. Afinal, sou um fracassado amoroso, mesmo não sendo tão ruim ser assim.

 
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Publicado por em 6 de março de 2015 em Guerra dos Sexos, Mundo cão