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Arquivo do autor:Marcus

Sobre Marcus

Um homem sério.

Notas sobre os desencontros de inverno

Estamos na farmácia. Farmácia de supermercado 24h. Procurando sal de frutas para curar a azia. Comemos salgado empanado com frango triturado. E suco.  Assistimos “Elena”. Bianca chorou no carro.

Deixamos a câmera com Ceci. Minha câmera vermelha e velha. Outro dia pegou vírus pelo cabo USB. Pesquisa na internet agora resolve tudo e o vírus do computador foi embora. Mas a câmera está infectada e os pendrives também.

Elena desconfortou. Lá, assistindo, achei tudo muito. Tudo demais. Agora, relembrando, acho que fui injusto. Agora não estou mais na farmácia. Nem no cinema. Estou aqui.  Mas a azia vem e vai, o tempo todo.

Azia que nem é mais de Elena, ou da câmera infectada, mas de tudo mais que tropeça em cavalos de Tróia.

Lembrei da professora de inglês do ginásio. A diretora da escola reuniu algumas turmas na mesma sala para comunicar o incomunicável.

“A professora morreu em um acidente de carro”

Era mentira.

Algumas pessoas choraram. Eu não lembro o que fiz.

Depois descobrimos que ela havia se matado.

“Descobriu que estava grávida. Havia terminado com o namorado. Tinha depressão”.

Ela era muito jovem. Eu também.  E naquela época não entendia a lógica de um suicídio. Anos antes, havia surtado quando me dei conta da minha mortalidade e passava as noites sem dormir, pensando que morreria um dia.

Ela era nova na escola. Não tinha mais de um mês. Nos fez ouvir uma música de “Dido”. “Thank You”. Ela gostava daquela canção.

Pessoas entram e saem da nossa vida a todo instante. Estamos nos chocando em vias sem sentidos obrigatórios.

Outro dia, me choquei com o senhor Philippe e seu complicado coração, através de um e-mail enganado.

Marcus,

Ontem, pela manhã, uma Senhora (…) telefonou e me disse que haveria nova avaliação do senhor (…) e, se fosse o caso, à tarde seria transportado para o (…).

(…) me disse à noite que ele foi operado da vesícula, estava na hora pois já supurada, mas já estava no pós-operatório.

Assim, e mais uma vez, em nome de toda a família, OBRIGADO. Valeu, Presidente!

(…)

Philippe,

Acho que houve algum equívoco. Não nos conhecemos e desconheço completamente o contexto do e-mail. Favor verificar o endereço do destinatário.  

(…)

Marcus,

Me perdoe. Tem toda a razão. Você tem um homônimo – pessoa excelente e do melhor nível ético segundo a opinião deste idoso de 81 anos . Ao digitar o seu nome, apareceram três opções de e-mail e cliquei numa das três. Opção errada… Realmente, cheguei tarde à idade da internet. Peço desculpas por minha inabilidade, e agradeço a gentileza do aviso.

(…)

Phillipe,

Sem problemas. Espero que o “verdadeiro” Marcus Curvelo receba as suas mensagens. E você é apenas um ano mais novo que meu pai, então não se sinta tão deslocado assim.

Boa sorte e tudo de bom.

(…)

Ele continuou enviando e-mails por engano. Tentei avisá-lo novamente. Desta vez, de maneira mais gentil.

Olá, Philippe. Tudo bem? 

Continuo recebendo seus e-mails por engano. Mas não se aborreça. A questão é que o verdadeiro Marcus Curvelo não está recebendo as suas mensagens. Tente ver o final do endereço de e-mail. Quando aparecer “@gmail.com“, sou eu.

Cordialmente,

“Falso” Marcus Curvelo

(…)

Prezado Marcus Curvelo,

Difícil admirar mais alguém que sequer conheço. A sua invariável gentileza toca o meu complicado coração; perdoe um velho tonto, que briga com o seu teclado e já não enxerga bem qualquer coisa abaixo de uma fonte 14.

Quando digito o nome de Marcus Curvelo, aparecem algumas opções já completas. Evito o endereço oficial de meu amigo e opto por…gmail, quando o dele é (…).

Mea culpa, mea maxima culpa.

Tentarei que não torne a acontecer. Como poderia assegurar que não recomeçarei a mesma tolice? Não incidir mais em senilidade?

Agradeço a acolhida.

Perdão e ótimo final de semana. Numerólogos devem explicar a causa de Marcus Curvelos serem pessoas tão bacanas.

(…)

Talvez ainda fosse a azia. Ou talvez fosse a solidão momentânea de mais uma madrugada em que eu procrastinava mais um trabalho qualquer. Mas eu me abri com o senhor Phillipe.

Prezado Phillippe,

A verdade é que gosto destes (des)encontros. Veja, sou cineasta, ou pelo menos gosto de pensar que sou um. E entre os minúsculos curtas-metragens que produzi durante esses primeiros anos de labuta, cambaleei entre pessoas chatas e trabalhos chatos, em um marasmo de idas e vindas sinuosas que não me levaram a muitos lugares. Quando um Francês de 81 anos me envia um e-mail (te pesquisei no google), mesmo que por engano, é algo para ser celebrado! 

Portanto, não se preocupe com esses embaraços cibernéticos. Tenho buscado cada vez mais o desencontro. E enquanto ainda estiver preso em trabalhos acadêmicos, empregos ruins e roteiros inacabados, será isso, encontros com pessoas bacanas e distintas, que impulsionará o meu também complicado coração. 

Grande abraço.

(…)

Já se passaram duas semanas. Talvez tenha assustado o senhor Philippe, ou ele finalmente excluiu meu e-mail de sua caixa de entrada.

Ou nos desencontramos. Da mesma maneira aleatória como nos chocamos da primeira vez.

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Publicado por em 17 de setembro de 2013 em Match Point, Porta Retrato

 

O tipo de coisa que escrevo no twitter

Penso em voltar para lá e continuar a ser brilhante.

Sorte do dia: Não existe sorte do dia.

Tutoriais de pessoas de 13 anos. Me sinto bem. Capaz

Vou parar de procrastinar em algumas horas.

Confeccionando propaganda enganosa.

Agora buscando um layout antigo para reciclar. Está sendo um bom dia.

Ok. Todos os meus layouts já foram reciclados.

Vou fazer jornalismo.

Os emails da Catho são bastante persuasivos. Quase tenho vontade de procurar um emprego.

Todo mundo sempre parece mais ocupado do que eu.

Meus emails sempre começam com “Infelizmente”, “Desculpe a demora”, ou “Eu não pedi esse massive penis enlarger”.

Vou terceirizar minha vida profissional.

Tem um inseto enorme me incomodando. Acho que vou deixá-lo entrar no meu cabelo e resolver isso amanhã.

“O mercado esta aquecido. Volte para a Catho Online.” Ok.

Sy Ableman was a serious man. http://www.youtube.com/watch?v=d2XctcZRWyw

“Ei! Menino do fusca! Tem uma blitz ali na frente.” Não entendi.

Há tempos não ouço ninguém dizer a palavra “mutchaco”. “Fique longe, eu tenho um mutchaco”, ou “Cuidado, ele tem um mutchaco”.

Tente dizer mutchaco várias vezes. Agora escreva. Não faz o menor sentido. Não faço a mínima idéia do que significa. Mutchaco.

(o\_!_/o) Fusca.

Pronto para marketizar o meu dia.

Tem uma goteira no meu carro.

Eu sonhei que era feito de abacate, explodia e sujava a janela do meu quarto. Analista?

“Prezado Marcus Curvelo, Conforme conversa por telefone, segue o manual para o seu kit de penis enlargment com fotos ilustrativas.”

 
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Publicado por em 14 de maio de 2013 em WTF?!

 

O ceticismo do homem elipse

Homem Elipse sai de casa às sete da manhã. Desde que havia perdido seu último emprego, não saia tão cedo de casa em um dia de semana. Mentira. Mesmo enquanto trabalhava não saia tão cedo. Surpreendeu-se com as ruas lotadas de carros e com a imobilidade das coisas. Um carro sobe no passeio para fugir do engarrafamento. Um motorista de caminhão, espumando ódio, grita, gesticula e faz ziguezague na pista após receber uma fechada. Todos buzinam uns para os outros, enquanto tentam se locomover para algum lugar. Doze horas depois, todos estarão no caminho contrário, tentando voltar para o lugar de onde saíram. E assim seguirá, durante todos os dias.

Homem Elipse precisa marcar um procedimento médico pelo SUS. O lugar está lotado. Todos parecem tomar vacinas, mas por motivos diferentes. E não há mais senha. Terá que voltar no dia seguinte, ou tentar marcar pelo telefone. Volta para casa e quase bate o carro três vezes. Fantasia uma epidemia em que as pessoas simplesmente parassem de se importar com a civilização e resolvessem viver vagando, sem a comodidade de comprar carne tratada e embalada com isopor no supermercado.  Chega em casa e liga para tentar marcar a consulta. A voz eletrônica, cuja dona também deveria estar presa em algum engarrafamento naquele momento, diz que as marcações só começam às nove. Liga às nove e um e todos os ramais estão ocupados. Vai para o computador. Procura as fotos da formatura que havia comparecido no dia anterior. Escreve.

Estou em uma formatura. E os cinegrafistas filmam os rostos dos formandos, que estão sentados naquela espécie de arquibancada. Alguns sorriem para a câmera, como se esperassem uma foto. A verdade é que não há muito que se fazer em uma situação dessas, com uma câmera em seu rosto. E simultaneamente tudo é projetado em uma tela que está voltada para a plateia. E então eu me lembro da minha formatura. Lembro que não peguei o vídeo. Penso que talvez algum dos meus colegas tenha o vídeo e que eu possa copia-lo em uma mídia de dvd. Penso, então, nos meus colegas. Havia uma comissão de formatura, como sempre há, e eles estavam sempre nervosos com alguma coisa que sempre estava prestes a dar errado. Acabei pagando por qualquer coisa. Não fazia a menor questão, para falar a verdade. Poderia pegar o meu diploma na secretaria da faculdade e sair para beber a cerveja mais barata que houvesse. Mas ontem, na formatura de uma amiga, eu pensei na minha formatura de alguns anos atrás. Lembrei-me do nosso professor homenageado, que faleceu há um ano e meio. Era minha primeira semana em um trabalho novo. Cheguei na empresa após o funeral e pesquisei os e-mails que havíamos trocado. Encontrei a nossa última conversa. Ele estava viajando. Foi a última viagem que fez antes de morrer. Ele estava feliz. Me disse que eu deveria me programar para fazer uma viagem dessas também. Eu disse que queria, que queria muito. Já fazem três anos e não viajei. Formaturas, casamentos, viagens ao exterior, viagens a trabalho, nascimento e morte. Vivemos em intervalos. E vamos esquecendo aos poucos das promessas que fazemos a nós mesmos.

Homem Elipse estava melancólico já antes das dez da manhã. Pensou em voltar a dormir, pois nada lhe daria mais prazer naquele momento. De repente era noite. Madrugada. Duas da manhã. Havia planejado chegar à fila do SUS antes das seis horas. Não conseguiria acordar e poderia morrer se não fosse logo ao médico. Pensou em ficar acordado e dormir na volta, mas poderia bater o carro ao dirigir com sono. Pensou que deveria comer mais frutas e se exercitar. Muitas pessoas estavam ficando doentes e ele estava perdendo a fé.

Dormiu e rezou secretamente para que tudo se fodesse.

 
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Publicado por em 7 de maio de 2013 em Mundo cão

 

A melancolia entre Juquinha e Roger

Estou montando o vídeo do aniversário de Juquinha. Esse não é o seu nome verdadeiro, mas eu e Bianca achamos engraçado chama-lo assim. Seu nome verdadeiro é muito mais sóbrio do que isso. Por enquanto, para nós, seu nome é Juquinha, como todos os meninos de um ano deveriam se chamar. E ele tem um ano. E às vezes ele ri aqui pra mim e eu percebo que crianças podem ser adoráveis, encantadoras mesmo. Há um momento fantástico em que ele me percebe e caminha em direção à câmera, sorrindo. Só agora ouvi que sorri de volta e que nossos risos se encontraram.

Eu pensei em usar algumas músicas da trilha de “Onde Vivem Os Monstros”, mas os pais dele podem estar esperando outra coisa completamente diferente. Há uma melancolia cortante em algumas dessas músicas. Fui com Patati e Patatá. Esse não sou eu, obviamente. Não gosto de filmar aniversários de crianças, ou casamentos, mas é assim que as coisas são. Às vezes, claro. E a melancolia do trabalho solitário nas madrugadas é menos cortante do que a desgraça diária em um escritório de imobiliária, por exemplo. Mas cortantes, cortantes mesmo, sãos as músicas de Karen O, para a trilha sonora de “Onde Vivem os Monstros”. E não há nada que me induza mais ao estado de melancolia do que uma música. Só a morte. E enquanto eu filmava o aniversário de Juquinha, um grande artista estava prestes a morrer. Roger Ebert. Crítico de cinema. Escritor brilhante. Sim, ele era um artista. E sua morte me levou a um surpreendente nó na garganta.

Um dia após a morte de Roger, e dois dias após o aniversário de Juquinha, eu e Bianca fomos a um espetáculo de dança. Em um dos atos, eles tocaram uma música da excepcional trilha sonora de “O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford”, chamada “Song For Bob”. A melancolia se instalava.

Roger escreveu um livro de memórias em 2011, intitulado “Life Itself”. O livro ainda não foi traduzido para português, mas o também crítico Pablo Villaça, amigo e colaborador de Roger, traduziu uma passagem do livro e publicou em seu blog, dias após a morte de seu mentor:

“Eu sei que ela está vindo, mas não a temo, pois acredito que não há nada do outro lado da morte para temer. Espero ser poupado o máximo possível da dor no caminho de chegada. Eu era perfeitamente feliz antes de nascer e penso na morte como sendo o mesmo estado. Sou grato pelos dons da inteligência, do amor, da capacidade de maravilhar-me e do riso. Não se pode dizer que não foi interessante. As memórias de minha vida são o que eu trouxe de volta da viagem. Não precisarei delas na eternidade mais do que precisarei daquele pequeno souvenir da Torre Eiffel que trouxe de Paris.

Não espero morrer logo. Mas poderia acontecer neste momento, enquanto escrevo. Outro dia eu conversava com Jim Toback, um amigo há 35 anos, e a conversa se voltou para nossas mortes, como sempre acontece: “Pergunte a qualquer um como se sente sobre a morte”, ele disse, “e eles te dirão que todo mundo morrerá. Pergunte então: ‘Nos próximos 30 segundos?’. Não, não, isso não. ‘E esta tarde?’ Não. O que você realmente está querendo que eles admitam é: Oh, meu Deus, eu não existo de verdade. Eu posso partir a qualquer segundo.”

Eu também posso, mas espero que não parta. Tenho planos. Ainda assim, a doença me conduziu resolutamente em direção à contemplação da morte. Isto me levou ao tema da Evolução, a mais consoladora de todas as ciências, e me vi envolvido em meu blog em discussões inesperadas sobre Deus, o pós-vida, religião, teoria da evolução, design inteligente, reencarnação, a natureza da realidade, o que veio antes do big bang, o que aguarda após o fim, a natureza da inteligência, a realidade do Eu, morte, morte, morte.

Muitos leitores me informaram que é um negócio trágico e melancólico ir em direção à morte sem alguma fé. Eu não sinto isso. A “Fé” é neutra. Tudo depende daquilo em que se acredita. Eu não tenho desejo algum de viver para sempre. O conceito me apavora. Tenho 69 anos, tive câncer, vou morrer antes da maioria das pessoas que agora leem isso. Esta é a natureza das coisas. Em meus planos para a vida após a morte, digo, novamente com Whitman:

Eu me lego à poeira para crescer da grama que amo,

Se me quiser de novo, procure-me sob suas botas.”

É fascinante a relação de admiração e amizade que Pablo Villaça estabeleceu com Roger Ebert. Ainda este mês, acontecerá a edição anual do Ebertfest, festival de cinema criado pelo Roger, e o Pablo comparecerá. Através de seu Twitter, ele convocou a todos os interessados para uma homenagem ao Roger. Ele imprimirá e encadernará todas as mensagens sobre o Roger que forem enviadas ao seu e-mail e as entregará à sua viúva durante o Ebertfest, como um tributo brasileiro ao mestre. Escrevi uma mensagem.

“Ganhei “Grandes Filmes” como um dos presentes pela minha primeira graduação. Ganhei da gerente de RH do meu primeiro estágio. Conversava com ela sobre a vontade de me tornar cineasta e cheguei a mostrar alguns primeiros trabalhos pavorosos para ela. Foi um choque. Nunca havia lido críticas como aquelas, tão apaixonadas. A crítica cinematográfica se apresentava como possibilidade de realização artística pela primeira vez para mim. E procurei mais sobre o Roger. Muito mais. Tudo o que poderia procurar. Acompanhava o seu site. Consultava-o antes de arriscar qualquer filme. E acompanhava também o seu blog, tão brilhante, íntimo e elegante. Inevitavelmente, afeiçoei-me a ele. É incrível como ele tinha esse poder. Nunca havia alimentado tanto carinho por um artista. Sim, Roger era um artista. Considerava-o como um amigo que morava muito longe e com quem eu me importava bastante. Acho que isso acontecia porque, além de ser dotado de um talento gigantesco, Roger escrevia com paixão e honestidade. Muita honestidade. Por tudo isso, ele ficará marcado para sempre em minha memória afetiva como alguém que ajudou a expandir a minha percepção sobre arte e como um amigo querido que nunca conheci.”

Poderia ter me saído melhor. Mas não há nada pior do que a pieguice. E não vou cair nessa.

Passei os últimos dias lendo muitas coisas sobre Roger, mas o fato é que eu precisava voltar para Juquinha. Ele acabou de nascer e provavelmente vai morrer depois de mim e “da maioria das pessoas que agora leem isso”. Assim como eu estou vivo agora e Roger não.

“Oh, meu Deus, eu não existo de verdade. Eu posso partir a qualquer segundo.”

Mas o que é bacana, e me faz pensar sobre um monte de coisas, é que Juquinha vai guardar esse vídeo por muito tempo. E dividimos aquele sorriso enquanto ele vinha em minha direção. Posso me ouvir. E ele poderá também.

Meu sorriso ecoará com o de Juquinha por alguns anos. É uma bela cena. Roger certamente concordaria. E que Juquinha me perdoe por Patati e Patatá. Estou certo, porém, de que bastará o contexto de um vídeo como esse para leva-lo ao mais intenso estado de nostalgia. E que depois a nostalgia vire melancolia, como deve ser.

Notas:

O site de Roger Ebert: http://www.rogerebert.com/

O seu blog (Que parece fora do ar, enquanto posto): http://www.rogerebert.com/rogers-journal

O site de Pablo Villaça: http://cinemaemcena.com.br/

O seu blog: http://www4.cinemaemcena.com.br/diariodebordo/

Algumas músicas da trilha de “Onde Vivem os Monstros”: Rumpus Reprise / Igloo / Lost Fur (Essa última não ia entrar no vídeo de Juquinha. De jeito nenhum. Mas é a minha preferida. O filme é incrível. Crítica do Pablo e Crítica do Roger.)

Song For Bob, da trilha de “O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford” (Não achei crítica do Pablo e Crítica do Roger.)

 
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Publicado por em 9 de abril de 2013 em Licença Poética, Match Point, Porta Retrato

 

Complicação com desfecho otimista

Homem Elipse: Tenho tido deja vus de coisas que nunca aconteceram.

Homem Parábola: Tudo já aconteceu alguma vez.

HE: Eu estava nu. E estavam quebrando o piso da sala. Isso nunca aconteceu.

HP: Você nunca mudou o piso da sala?

HE: Nunca.

HP: Alguma coisa já aconteceu na sala, tenho certeza disso.

HE: Provavelmente. Mas os pisos sempre foram os mesmos.

HP: Não importa. E você está nu o tempo todo. Isso não significa nada.

HE: Não estou nu o tempo todo.

HP: E depois? O que acontece?

HE: Nada se concretiza. Nunca.

HP: Não há nada para se concretizar.

HE: Olhe os meus dedos, por exemplo. Eles sempre inflamam. Nos cantos, de tanto arrancar aqueles pedaços de pele em volta das unhas.  Isso sempre aconteceu e sempre acontecerá. Não tenho perspectivas.

HP: Escreva um texto para o seu filho que ainda não nasceu.

Homem Elipse não sabia o que escrever. Sabia que não teria capacidade de se reproduzir. Morreria muito antes disso, com certeza.

Eu me pergunto se você vai ler isso tudo algum dia. Se vai achar os textos originais em algum HD antigo.  Que impressão está tendo? Quem sou eu, para você? Quantos anos você tem? Minha vida profissional está um lixo, mas tenho novos pisos na sala. São os melhores pisos que poderia ter. Mas não sei se isso significa alguma coisa, tendo em vista que considero lixo tudo que comprei anteriormente. Um amigo, que também comprou pisos novos, me disse que precisamos mudar sempre.  Concordo com ele. Só não consigo colocar isso em prática.

Minha moto está totalmente destruída, mas está sendo reformada e talvez dure por um tempo. Ela ainda existe? Sou péssimo em ciências exatas. Costumava imitar Marlon Brando personificado como Don Corleone em “O Poderoso Chefão”.  Compro dezenas de livros e demoro anos para ler todos. Sou preguiçoso. Muito preguiçoso. Nunca mais pratiquei esportes. Estou sedentário. Não estou gordo ainda. Acho que não tenho “tendência”. Optei por um novo corte de cabelo desde o ano passado. Está maior agora. Hoje em dia as pessoas vendem apartamentos como se fossem bananas, mas, mesmo assim, ainda moro de aluguel. Você precisa ter um emprego estável e ganhar razoavelmente bem para tentar financiamento. Vejo pouco os meus amigos, mas ainda tenho alguns. Passo mais tempo em casa do que fora dela, o que me da à impressão vazia de que eu preciso aproveitar mais qualquer tipo de coisa que esteja acontecendo.

Paro aqui. Vamos encarar isso como um parêntesis. O fluxo seguirá.

Após ler a carta, Homem Parábola convida Homem Elipse para presenciar a encenação da sua “Parábola do Homem sem Geografia”, que havia preparado para o seu filho de oito dias.

 
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Publicado por em 2 de abril de 2013 em WTF?!

 

Homem elipse toma vitaminas e vai de ônibus para o trabalho

Homem Elipse preparava-se para fazer flexões. As vitaminas que havia começado a tomar já faziam efeito. Conseguia dormir cinco horas por dia e não acordava com vontade de morrer. No trabalho, conseguia raciocinar pela manhã. Não pensava mais em dormir escondido no banheiro após o almoço. Anos de frustrações e demissões poderiam ter sido evitados. Ele agora sabia que sua preguiça mortal, quase paralisadora, era fruto de uma espécie de deficiência hormonal, ou outra coisa do tipo. O impulso de comprar as vitaminas veio após ter assistido uma matéria no telejornal, semanas antes. Um rapaz cadeirante de vinte anos pegava quatro ônibus por dia para trabalhar. Dois para ir e dois para voltar. Homem Elipse pegava taxi quase todos os dias, pois acordava às nove da manhã, com uma preguiça mortal, uma melancolia que ia além de uma mera indisposição.

Trabalhar é uma desgraça.

Um dia, pensou em atirar na própria cara, mas seria patético morrer por preguiça. Ainda não havia chegado aos trinta anos. Queria, ao menos, ver o progresso do garoto cadeirante, que, naquele telejornal de terça-feira, havia inundado suas entranhas com imensa culpa. Estava comendo miojo com queijo. Tinha trezentos e vinte reais na conta corrente. Noventa e dois centavos na poupança. E era tudo. O seguro desemprego havia acabado há dois meses.

Se eu não gastar muito eu posso esperar uns três meses para voltar a procurar emprego.

Sujo de queijo e de merda, Homem Elipse aguardava o programa esportivo enquanto assistia ao telejornal. As mortes banais. As mortes engraçadas. As mortes patéticas. As notícias seguiam as mesmas, até que o garoto cadeirante apareceu.

Eu preciso trabalhar. Vou tomar vitaminas e vou conseguir dormir menos. E vou acordar mais disposto. E vou fazer flexões. E vou ler mais. E vou fazer um curso qualquer. Todo mundo trabalha, junta dinheiro e faz um monte de coisas bacanas.

Ele pensava em fazer um curso de fotografia aos finais de semana para amenizar a mediocridade existencial que o resumia a uma atividade sem sentido durante quarenta e quatro horas semanais. Relatórios, sistemas, números, documentos, segundas vias, terceiras, vias, e-mails urgentes. Era como uma gincana qualquer. Muitas vezes custava a entender a maneira como o seu trabalho contribuía para as empresas em que trabalhava. Imaginava aquilo tudo sem ele e não via a menor diferença.

Talvez eu não mereça andar.

Era uma nova terça-feira, quando Homem Elipse acordou cedo, fez uma flexão, e foi de ônibus para o novo trabalho.

 
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Publicado por em 26 de março de 2013 em Match Point, Porta Retrato, WTF?!

 

Bianca

Ela disse que meu cabelo ficaria mais bonito encaracolado.

Ela ia ao aeroclube tomar sorvete comigo.

Ela fez com que eu conseguisse meu primeiro emprego.

Ela comprou o dvd do meu filme favorito.

Ela conversava comigo durante horas sobre desenhos animados.

Ela respondia as minhas mensagens de texto. Quando não tinha créditos, dava um toque no meu celular para eu saber que as mensagens tinham chegado.

Ela nunca me entediou.

Ela viu fotos da minha infância.

Ela sentava na cama da minha vovó.

Ela foi até a rua da casa da minha infância em Arembepe.

Ela dizia que iria fugir comigo pra uma aldeia hippie se tudo desse errado.

Ela empurrava o Fusca comigo.

Ela colocava leite em pó na minha salada de frutas.

Ela me ajudava com trabalhos de faculdade.

Ela compartilha de todas as minhas aflições.

Ela consegue entender tudo que acontece comigo.

Ela me ajuda em tudo o que ela pode.

Ela me recebe no aeroporto.

Ela tenta cozinhar para mim, mesmo sem saber. E não se incomoda com o fato de eu também não saber.

Ela me ajuda a escrever.

Ela me ajuda a filmar.

Ela se deixa ser filmada.

Ela inventou um termo específico para definir um senso de humor que acreditava ser exclusivo dela e de suas melhores amigas.

Ela ouve tudo o que tenho a dizer.

Ela come banana cortada com leite em pó e açúcar.

Ela ama cachorros.

Ela pede para cortar as minhas unhas.

Ela me deu um violão.

Ela é justa.

Ela é meiga.

Ela é elegante.

Ela é a melhor pessoa que já conheci.

E eu amo Bianca.

BIA

 
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Publicado por em 19 de março de 2013 em Guerra dos Sexos