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Sobre Geisson

Mestre de mil coisas, na milésima: A Odontologia. Com um oceano de conhecimento de uma polegada de profundidade, tenho mais de cem facas, mas nenhuma afiada.

A Mulher é o que há

E comemoramos mais um dia internacional das mulheres, que já vitoriosas em muitas lutas, mostra que o discurso de sua fragilidade se esvaiu há alguns anos. A imagem de sexo frágil, de dona de casa, de oprimida, tem diminuído na proporção em que seus afazeres e sua carreira profissional tem lhe apertado. Não sobra mais tempo de se preocupar com isso.
Elas estão deixando também aquela preocupação de fazer tudo exatamente igual ao que o homem faz na carreira profissional, para se provar capaz. Elas têm mudado. A mulher pilota jumbo [não precisa], maneja guindastes de centenas de toneladas [não precisa], pilota ônibus espaciais [não precisa]. A mulher é o que há.
Mas algo de novo tem surgido; uma nova mulher. A feminina menina, que se mostra delicada e terna, mas tenaz, resiliente e competente. Sabe o que acontece? Elas dominaram o mundo, com as armas intangíveis do amor.
Felicidades a você, Mulher.
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Publicado por em 8 de março de 2012 em Guerra dos Sexos

 

Escove Bem!

Ali estava ele, no auge de várias semanas de preparação, Jaime finalmente se encontrava com a Cíntia no chique restaurante Soho. Ele não poupou seus recursos: duzentos e noventa reais numa entrada, duas taças de vinho e um salmão no alumínio com shimeji. Tudo isso excluindo a gorgeta, é claro. Clima perfeito para conquista daquela advogada que ele conheceu profissionalmente, mas fizera uma despretenciosa amizade. Despretenciosa ao menos até o sopé da Ladeira da Barra, pois Cíntia estava quase caíndo na conversa daquele dentista charmosão do sorriso fácil, frases de efeito e cantadas baratas. Faltava somente aquela música que coroasse a galante noite que estava por se completar. Dirigindo-se ao carro Jaime dá uma parada estratégica para um beijo caloroso em Cíntia.
Após, arderem em desejos lascivos, se entregaram em definitivo ao momento e foram ao apartamento do dentista, entrando meio que como num velho clichê de hollywood: despindo-se aos beijos em direção do quarto, seguido dele carregando-a e gentilmente pousando-a sobre a cama. Cíntia tentava desabotoar sua calça jeans enquanto beijava seus seios.
Cíntia diz Olha, não sou dessas histéricas que gritam enquanto transam, espero que não se decepcione  Ele sorriu pra ela, não queria fazer amor com sua garganta mas sim consumir meses de desejos reprimidos com beijos e carícias, naquele momento onde as horas avançavam velozmente. Os dois completam a aguardada conjunção libidinosa com a Cíntia por cima, gritando o tempo todo.
Cansado do embate, Jaime afrouxou sua regra dourada de “cada qual em seu canto”, deixando-a dormir em sua casa. Até porquê, além de ser madrugada de sábado, exausto e distante de seus anos de vigor adolescente, teria que levá-la até o bairro das Cajazeiras. Mas enfim, baixada a guarda, capotou na cama, ressoando um apito alegre como a muito tempo não se via, a despeito das vantagens que cantava a seus amigos.
Cíntia dormiu feliz mais ainda assim acordou cedo. Ela se levanta em direção do banheiro.

 Amor, vou usar sua escova de dentes, viu?  informa a advogada, retoricamente claro, porque a pasta já estava espumando seus dentes… O doutor Jaime balbucia algumas palavras sonolentas e desconexas, quando algum neurônio heróico [o que pegou no tranco] o fez despertar em olhos esbugalhados: Hã? O quê?

Nesta hora cabe um adendo: nada é mais pessoal, impensavelmente intransferível e incompartilhável para um dentista que sua escova de dente. É uma questão de princípios… de higiene… de bactérias… de… neuroses postas em seu anos de graduação, de beirar a compulsão. Peça seu cartão de crédito, mas não peça sua escova de dente…
Batendo o recorde do salto triplo, Jaime dirige-se até a porta do banheiro para tentar dissuadi-la daquele intento, mas encontra sua amante escovando os dentes, em frente ao espelho, semi-nua, vestindo apenas uma de suas camisas com sua bunda empinada e os seios salientes.
Mas Jaime só via um bloco de liga de prata infiltrado, com percolação por distal, gengivite no terceiro sextante e cárie no premolar esquerdo. Ele contaria um a um os Staphylococcus aureus e as Pseudomonas aeruginosa, mas são os Streptococcus mutans que fazem ele sentir um gélido arrepio na espinha.
Cíntia não entendia o porquê de seu amante se levantar tão somente para vê-la escovar os dentes. Mas se era algum fetiche de dentista, ela iria satiafazê-lo com muito carinho: escovou ainda mais forte e começou a chupar a escova.
Jaime estava ficando louco. Talvez não do jeito que sua amante imaginava. Ele apenas enxegava a cor do creme dental alterando, pensando nos fungos oportunistas, nas leucoplasias traumáticas causando descamação celular e sangramento em cima de sua crosspowermegaplus de doze reais. “Meu Deus” pensava ele, zonzo.
Cíntia, empolgada por estar deixando o amante fora de si, tira a escova ensaboada da boca descendo pelo pescoço: ela estava começando a gostar daquilo.
Jaime segura-se na soleira da porta quando percebe onde Cíntia terminaria o translado daquela cepilha. Aquela boca ele não tinha qualquer conhecimento (acadêmico ao menos), mas sabia que a flora dali era totalmente desconhecida.
Ápice! Cíntia estava extremamente excitada, Jaime estava transtornado e a escova estava na dela.
Ela resolve incluí-lo em sua própria fantasia e põe na boca do Jaime aquela escova sexualmente úmida, quente, de aroma marinho e com alguns pêlos, onde  no auge de sua excitação asquerosa  ele tem a primeira síncope sexual de sua vida
***
 
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Publicado por em 19 de fevereiro de 2012 em Guerra dos Sexos

 

Jack 2

Jack chega a Lauro de Freitas sofrendo todas as infrações de trânsito possíveis na avenida Paralela. Estava zonzo e de longe não imaginava porque sentia frio naquela tarde de sol.

Seus olhos pesavam como se estivesse com sono, não sentia mais dor. Pelo contrário, estava se sentindo bem… Um pouco úmido, mas bem. Ele já não se lembrava mais por que estava indo em direção de Villas do Atlântico, mas mecanicamente, assim como fez por muitos meses, quando estava namorando a Michele, deixou-se levar pelo seu adestramento.

Entrou na rua A e dobrou a quatrocentos metros na rua H. Parou o seu Clio com um novo corante carmim no estofado ­ em frente à casa de número quinze; buzinou três vezes e desmaiou em seu sangue e vômito.

***

CAPÍTULO 4

Naquela tarde de inverno paulista de 1970 o sol brilhava com toda a força no número 66 da Rua General Osório, próximo à Rua Mauá, no centro de São Paulo. Ali funcionava Departamento de Ordem Política e Social, onde eram tomados os “depoimentos” da maioria dos chamados insurgentes ao regime. Apesar do dia aberto, estava frio, mas para alguns o dia era gélido se apresentava na perspectiva de como seria o interrogatório com o Delegado Fleury e sua turma. Diziam nos bastidores que, entre eles existe um cabo, por nome Paulo, que era o pior da equipe, porque desenvolveu novas técnicas de “amaciamento” nos interrogatórios onde, se o sujeito não dissesse o que ele queria ouvir, era morte certa em poucas horas.

Se à época, a moda eram os cabelões grandes e soltos, roupas folgadas e calças boca-de-sino estampadas e coloridas, Paulo estava na contramão: cabelos negros e lisos, bem assentados em gel barato, uniforme e camisas de quatro vincos, bem engomadas. Forte e largo, o desgraçado ainda iria viver muito. Ele aparentemente não tinha sentimento de remorsos, coisa que aposentaram prematuramente muitos naquele negócio. Os seus superiores, que nunca tinham todos os detalhes de seus métodos, estavam contentes com sua rápida obtenção de informações.

Deve-se ressaltar que no regime daquele período todo tipo de gente era “interrogada” e muitos dados eram coletados. A grande maioria desses dados não era confiável, apenas um pequeno alívio nas sessões de tortura que, em muitos casos — senão a maioria deles — precisava ser checada.

Não muito longe dali, no Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna, um jovem oficial, que seus colegas colocaram o apelido de Alemão, resolveu catalogar todas as informações colhidas em interrogatórios, num banco de dados para posterior análise. Até aí nada de excepcional, a não ser o nível de detalhamento e complexidade do “Alemão”

Manfredo levantava todo tipo de informação possível do suspeito, inclusive quais métodos foram utilizados na obtenção do “depoimento” e se valia destas informações para dar um escore ao dado colhido, entre “pouco confiável” até “muito provável”. Foi assim que ele constatou que o jovem oficial Paulo estava conseguindo muitos “muito prováveis” com seu novo, eficaz e revolucionário método de inquérito. Rapidamente ele e o Paulo se tornaram grandes amigos.

Até meados de 1973, os dois anjos da morte tinham “interrogado” mais de sessenta suspeitos, com cerca de doze revelando informações valiosas que levaram a morte mais de trinta guerrilheiros por todos os cantos do país. Mas chegara o ponto que as pressões em cima do regime estavam insuportáveis, começando a perder seu discurso de legitimidade frente à sociedade. Era preciso encerrar algumas atividades, e os “Anjos” estavam no topo da lista.

Ao Coronel Manfredo coube desfazer o mais discreto possível as operações de investigação e inquérito, mas que as informações a respeito da jóia de malta ficasse ao alcance de futuros interesses.  Paulo recebeu uma aposentadoria sem alardes, e ganhou muito dinheiro para manter-se quieto. Montou uma pousada em praias baianas. Lá ele conheceu uma linda nativa, casou-se e teve três filhas, das quais duas são médicas.

***

 

Jack começou a acordar e a dor estava voltando. Em seu pulso, um escalpo e um equipo, escondidos pelo esparadrapo estavam restaurando a pressão perdida junto a certa quantidade de sangue. Seus olhos ardiam, mas ele pode reconhecer o vulto de Michele segurando seu braço. Ela cochichou ao seu ouvido algo sobre a bala estilhaçando na crista do ilíaco, perfurando meia dúzia de vasos, sobre a sorte de estar vivo e coisas semelhantes. Ele não se segurou e desmaiou por mais dez horas. Eram sete e meia da noite quando Michele guardou a seringa de remifentanil.

***

 
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Publicado por em 2 de fevereiro de 2012 em Porta Retrato, Pseudo Cult

 

Jack

Estava no Twitter nesta semana e, encontrando o Rui, perguntei se aqui cabia um conto. Gentilmente ele me disse: “Cabe tudo — Lá ele!”. Reconheço que fiquei muito contente.

Mas o que era uma crônica virou conto, e o conto estava se tornando um romance policial, um micro-romance para ser mais preciso.

Então vou dividi-lo em três partes com dez capítulos e, esperando que gostem, peço perdão pelos erros ao lexo. Lembrando também que, por ser uma obra de ficção, se qualquer personagem parecer com alguma pessoa, viva ou morta, trata-se de pura concidência.

Torçam pelo Jack.

Capítulo 1

Jack estava ao volante e o velocímetro marcava cento e vinte quilômetros por hora. O suor nas mãos e a respiração ofegante denotavam que sua frequência cardíaca estava bem próxima da velocidade de seu Renault Clio. Um jorro de cortisol lhe deixou mais alerta. Ele passou a sentir a vibração da suspensão, a aspereza do revestimento desgastado da porta em seu braço e o ruído crepitante da borracha do pneu esfarelando no asfalto. Cento e quarenta.

—Merda!

Envolto na lembrança dos últimos eventos, não tinha percebido que continuava a acelerar perigosamente. Foi aí que a ferida a bala de seu flanco esquerdo ardeu um pouco mais. Não tinha parado de sangrar do jeito que imaginava, experimentando um gosto amargo na boca que nunca tinha sentido anteriormente: um gosto de morte.

***

Quarenta e seis horas antes, às onze e quinze da noite no bairro do Imbuí, Jack de barriga cheia e dentes escovados, segue sua rotina de sempre: tomou seu copo d’água, checou as fechaduras e trancas, apagou as poucas luzes que estavam acesas e foi se deitar. Solitariamente esperava o sono chegar a sua cama, acessando a internet pelo celular.

Em sua caixa de entrada do e-mail, achou um link phirshing tentando roubar sua senha do banco. Nela afirmava que sua conta seria encerrada se não clicasse num link gentilmente disponibilizado pelo hacker: “Ah! Um pouco de emoção numa noite chata!” pensou. Saiu relutante da cama, ligou o velho notebook e começou a fuçar seus arquivos. Achou um “kit” que ele mesmo criou em assembler com três pequenos programas que levaram meses parar escrevê-los. Pura preguiça.

Clicando no link do e-mail, foi a uma página rigorosamente igual ao do banco, ao menos é claro, por alguns caracteres na barra de endereços. Acessou o endereço de FTP do site do sacana e clicou em seu “kit”. Por força bruta, seu primeiro programinha iria descobrir em algumas horas a senha do servidor. Após isso, um segundo programa iria varrer o site, baixar todos os arquivos e deletá-los sem piedade. O terceiro programa, que o Jack carinhosamente apelidara de “escroque” seria copiado para o servidor e ficaria adormecido até o momento oportuno. Mal sabia ele que o escroque será o deus ex machina de sua desventura.

Jack fez seu contra-ataque conforme o manual, não se sentiu com azar ou sorte; não teve pesadelo, não estava eufórico nem deprimido. Dormiu a noite na mesma posição, acordou com fome e atrasado; saiu com pressa e chegou quase às nove horas ao trabalho.

***

Capítulo 2

Em Brasília, no bloco Q da Explanada dos Ministérios existe um prédio imponente e antigo, dez andares de mármores envelhecidos e sujidade características às repartições públicas. Nele, umas séries de letras acobreadas com cinco metros de largura por três de altura em sua lateral diziam “Ministério da Defesa — Comando da Aeronáutica — Força Aérea Brasileira”.  O quarto andar era de acesso privilegiado ao alto escalão das forças armadas e seus assessores pessoais. Ali estão mainframes de data warehouses que guardam todos os segredos da inteligência militar brasileira, inclusive os relatórios da tentativa iraniana de roubar a tecnologia das ultra-centrífugas de enriquecer urânio e o avistamento de OVINS em 1987, pelo major-aviador Ney Cerqueira quando pilotava seu F-5.

Mas o lugar mais disputado do quarto andar não é o terminal cisco na porta da sala ultrarrefrigerada, mas sim um canto apertado em frente à porta de compensado. Lá, uma cafeteira dispunha uma especial licença, irrevogável, única a todo o território nacional: Podia-se fumar em frente a ela.

E Fernando abusava do precedente emendando um cigarro atrás do outro, colocando os filtros no quarto copinho de café, enquanto sorvia o sexto. Segurava alguns papéis esperando o Major-Brigadeiro Manfredo chegar para dar uma notícia que seria o fim de suas pretensões de ascensão profissional. Quando finalmente o militar adentrou o corredor, Fernando já sabia onde estaria após o seu briefing — no vaso sanitário.

Os dois se entreolharam e entraram na sala de reunião.

—O que houve? Porque você me telefonou? — direto e cáustico, o Brigadeiro era um senhor de meter medo. Alto, corpulento, tinha uma voz grave devido a anos de hábito de fumar, mas aquele ambiente depurado estava irritante até mesmo para ele;

— Aqui os detalhes senhor ­— Toda conversa de inteligência poderia ser em código, com mensagens em fitas auto-destrutivas ou microfilmes tecnológicos. Mas não naquele lugar, ali bastava somente não falar muito.

O Brigadeiro pegou o impresso com um timbre do brasão de armas, um papel fino e elegante, um carimbo de “confidencial” e outros floreios. “Tudo desnecessário” pensou: “A primeira coisa que vou fazer é destruí-lo”.

— Foi no servidor do Ministério? — Indaga o militar;

— Não, senhor. Nem com milhares de ataques simultâneos, hackers não conseguiriam acessar o Ministério… E a base de dados não tem acesso pela internet. Este foi um servidor menor.

— O que foi copiado foram somente estes arquivos?

— Sim, senhor!

— Muito obrigado, pode ir agora. — Fernando saia rapidamente, queria ir ao toalete devido à pressão em seu esfíncter, quando foi chamado atenção: — Nada de relatórios, citações ou comentários.

O Major-Brigadeiro pega sua pasta e caminha sombrio e pensativo. Imagens de 1973 vêm à sua mente. Um amigo íntimo exacerbando em seus interrogatórios no Departamento de Ordem Política e Social. Fotos de cemitérios clandestinos, microfilmagens de depoimentos, listas de mortos e necropsias. Manfredo passa por todos sem responder às continências alheias. Vai direto ao seu automóvel que permaneceu ligado por sua orientação. Pega o telefone celular digita alguns números, espera o sistema que criptografa o sinal e liga novamente para um conhecido:

— Paulo? Os arquivos QWZ12 foram copiados. Eu sabia que não poderíamos confiar naquele filho da puta. Olhe, estou providenciando identificar quem foi o responsável, mas você sabe que estes documentos não podem nem sonhar em ser divulgados. O SEU TAMBÉM ESTÁ NA RETA — desliga com força o telefone, achando que isso traria algum impacto no ouvido do coitado.

Outro telefonema:

— Alô, prepare-se, você tem uma incumbência, não quero falhas.

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Publicado por em 19 de janeiro de 2012 em Guerra dos Sexos

 

As seen on TV

Neste sábado acordei mais cedo e após o café matinal, resolvi que iria ao consultório de ônibus. Se algum maldoso disser que estive sem grana para a gasolina, eu tenho aquela desculpa esfarrapada do ecologicamente engajado. Coloquei meu ipod na função shuffle, dei um beijo na morena e sai ouvindo “who are you” do ‘The Who’, do jeito que eu vi no famoso seriado policial… Cool! Tive a sorte de ver o meu ônibus na hora que passei pelo ponto de parada e, que beleza, achei um assento vazio! Não fosse essa incomum sorte matinal, possivelmente este texto não existiria; mas assim como vi na televisão, blogar é legal, coisa de gente inteligente… Ou que se esforça seriamente em sê-lo.

Estava tocando “Deabaser” do ‘The Pixies’, quando percebi certo movimento do lado de fora do ônibus, alguém estava sendo assaltado. O ladrão intimidou sua vítima com uma arma e contente com o valor do produto de seu ato, comentou: “perdeu preiboi, perdeu preiboi”, exatamente como tinha visto na novela. Ele pode não ter a quarta série completa, mas já manja tanto do inglês que o usa com muita desenvoltura.

A certa altura, tocando “Like a Suicide” do ‘Sound Garden’, me levantei por alguns momentos… Entrou no ônibus uma mocinha de roupas apertadas, bem sensuais; uma saia curta, muito maquiada e um filho no colo. Muitos a olhavam em suas roupas provocantes, mas ela nem ligava. Já há algum tempo ela aprendeu assistindo nos filmes, que a mulher provocante é muito interessante e inteligente, mas acho que não ficou muito claro o momento e o local… mas vá lá, me levantei. Acho que isso passou na malhação

Se aproximava o local em que eu iria descer e “Leash” do ‘Pearl Jam’ estava começando, quando escutei uma batida diferente. Achei que o meu aparelho tinha quebrado ou mesmo que houve algum acidente. Foi ficando cada vez mais alto e barulhento; em poucos momentos eu já não conseguia ouvir direito o ipod. Quando tirei o fone estava tocando “Amor Meu” de ‘Silvano Sales’ numa daquelas caixinhas acústicas que vem de contrabando da China. O rapazinho em sua pose de gladiador vitorioso, tinha aprendido aquilo no programa de… assistindo ao… aliás, foi no filme de… hã…

Ehr! Tai algo genuinamente fruto da criatividade popular!

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Publicado por em 12 de janeiro de 2012 em Musicalizando, Porta Retrato

 

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O Pequeno Torcedor

O Pequeno Torcedor

Qual o seu time do coração? Quem te influenciou na escolha dele? Seu pai? Seu tio? Eu, por exemplo, sou torcedor tricolor, por influência de meu pai. Muito cedo eu tinha minha camisa e meu boné, e quase todo o hino gravado na mente. Entretanto, nem com todo mundo é assim. A escolha do time pode estar associada a um evento de catarse coletiva.

Lucas tem nove anos, é filho querido, e neto de fanáticos torcedores do Esporte Clube Vitória. Até pouco tempo atrás seu quarto era decorado com todo tipo de bibelôs, adesivos, bandeiras, pelúcias e referências ao Leão da Barra. Desde cedo então, imaginava-se que o Lucas seguiria a lógica da família, torcendo pelo time mais profícuo nos últimos anos em títulos do futebol baiano. Mas infelizmente, a regra não foi clara, o jargão não foi bem colocado e o menino não torce pelo Vitória.

Certo dia, seu tio materno e tricolor, aproveitando um descuido dos pais, resolveu levar o menino para passear e no caminho assistir a sua primeira partida de futebol. Neste momento, Lucas não estava muito aí para qual time ele deveria torcer, e era conveniente deixar os pais dizerem que torcia pelo rubro-negro. Nesse dia, o time tricolor perdeu, mas dali em diante, o Lucas decidiu e foi taxativo: Sou Bahia doente! Foi uma comoção na família. “Poderia ter perdido de ano na escola, mas torcer pelo arquirrival… não!” O tio lambão foi considerado um traidor, que incutiu mentiras na cabecinha do menino, que sem maturidade suficiente para analisar os fatos, cedeu logo na primeira tentativa. Tinha-se que agir rápido. Comprou-se mais adereços do Vitória; bandeiras maiores; promessas de presentes de natal antecipados; o DVD da Ivete Sangalo cantando o hino… Nada fez efeito, nem ir ao Barradão o menino quis. O dano era irreparável.

***

O Sol de domingo ainda brilhava timidamente, quando o menino e seu tio entravam pelos portões do estádio de Pituaçu. Era a primeira vez do menino e ele estava muito assustado com a quantidade de pessoas que cabiam ali. A luz cortada pela sombra da arquibancada contrastava com o coro dos torcedores cantando hinos e soltando palavrões. Seu tio olhou em seus olhos assombrados e abriu um sorriso franco. “Você está entre irmãos” diz o reverendo da torcida. O menino estava nos ombros do tio, e ficou encantado. Admirando daquele coro que não cessava, pulando e cantando; torcendo e chorando. O tio quase não falava. Apenas se segurava para não soltar um ”puta que pariu” ou “mas que porra, caralho” na frente de seu sobrinho… Seu time não estava bem naquele momento. Mas o menino continuava olhando tudo fascinado.

O tio cansou e desceu o menino dos seus ombros, outro “tio” pegou-o e colocou em novos ombros. O menino pensou “é aqui que eu quero ficar, aqui é minha casa”. O tio levou a culpa. O menino não o justificou. Ele se apaixonou pelo time, será uma paixão duradoura e vitalícia, com direito a muito sofrimento. Mas que catequizou o moleque não foi o tio, ou o craque, ou o clube… Foi sua torcida.

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Publicado por em 5 de janeiro de 2012 em Porta Retrato

 

O Trânsito

OK, passei tempo demais no interior e esqueci a arte de dirigir na capital. Mas quem vive dois mundos, obviamente quer o melhor dos dois, não? Em se tratando de trânsito, o melhor é aquele em que dificilmente é engatada a quarta marcha.

Soteropolitano nato, eu necessito do vapor salítrico e característico da umidade de nossa cidade, do sabor da culinária e do azeite de “mainha”… Portanto pego a estrada para a capital todas as sextas, para o meu confortável apartamento e aos braços de uma linda morena que virtuosamente aprendeu a me tolerar.

Na cabine do pedágio da estrada, a moça já prevê como será a jornada: “Deus te acompanhe”. Por mais rápido que eu fosse, Murphy me diz que sempre existirá um carro mais potente e um motorista mais louco.

Mas finalmente chego à região do shopping Iguatemi, muito contente afinal, em casa. Não tecnicamente minha casa, mas tudo que estive querendo ao seguir viagem estava na minha frente. Ao menos até um taxista me fechar com um dedo em riste. Ah! Decidi que aquilo não iria tirar meu bom humor, precisava dele para escrever para o este Blog…

Começo a descobrir que o mapeamento dos buracos que fiz na semana passada não é mais válido, eles transladaram-se misteriosamente. Descubro também que as motos pop100 têm placas que são facilmente dobráveis, caso algum desavisado leve seu retrovisor e não queira ser identificado… Que os congestionamentos me tomam mais tempo que a própria estrada… Ufa!

Ah! Depois de dois pneus perdidos e duas jantes empenadas; um retrovisor perdido e muita animosidade trocada… Como é bom estar em casa!

Feliz Ano Novo a todos!

 
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Publicado por em 29 de dezembro de 2011 em Mundo cão